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Entrevista da Semana / SEM MEMÓRIA
16.12.2017 | 20h10
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Descaso com patrimônio é agressão a Cuiabá, diz escritor

Moisés Martins lamentou desabamento da Casa de Bem-Bem e descuido com imóveis do Centro

Alair Ribeiro/MidiaNews

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Moisés Martins é considerado um dos ícones do movimento chamado de cuiabania

THAIZA ASSUNÇÃO
DA REDAÇÃO

Foi com lágrimas nos olhos que o escritor e compositor Moisés Martins falou ao MidiaNews sobre o descaso com o patrimônio histórico e arquitetônico de Cuiabá.

 

Moisés é membro da Academia Mato-Grossense de Letras e considerado um dos ícones da cuiabania.

 

Ele classificou como lamentável o desabamento de parte da estrutura da Casa de Bem Bem, na Rua Barão de Melgaço, no Centro de Cuiabá, no início do mês.

 

“Cuiabá não tem um projeto de preservação desses bens culturais. Não tem compromisso com a nossa cultura  Uma construção como essa da Casa de Bem-Bem, da professora Constança Palma, carrega uma história. E tudo veio abaixo. Mesmo que reformem, nunca mais será a mesma”, disse.

 

“A cidade tem alma, a cidade fala, a cidade grita, a cidade reclama. Nós estamos vendo Cuiabá reclamando, mas lamentavelmente estamos convivendo com essa depredação que está acabando com nossa história. Cada casarão que cai é uma história que se vai”, afirmou.

 

Na entrevista, Martins ainda falou sobre o linguajar cuiabano, a literatura mato-grossense e as músicas regionais.

 

Confira os principais trechos da entrevista: 

 

MidiaNews - Nesta semana, os cuiabanos lamentaram o desabamento da tradicional Casa de Bem-Bem, no Centro Histórico.  A que o senhor atribui esse acontecimento triste para a Capital?

 

Moisés Martins – É um acontecimento lamentável. E não é só a Casa de Bem-Bem. Essa história [destruição do patrimônio histórico] vem desde a Catedral Metropolitana do Bom Jesus de Cuiabá, que foi demolida em 1968. Era uma preciosidade arquitetônica.

 

O patrimônio histórico de Cuiabá está sendo agredido e destruído há muito tempo. É uma agressão. Por exemplo: a Rua 13 de Julho se descaracterizou totalmente. As nossas praças, o Campo D’ Ourique, onde eu fui criado e até fiz uma homenagem com a música "Pixé"... Tudo isso se perdeu. O Campo D’Ourique era ponto de encontro da juventude da época e foi demolido para montar aquele elefante branco que hoje estão falando que é a  Câmara Municipal, ou a "Casa dos Horrores". E antes foi Assembleia Legislativa.

 

Ali na esquina da Travessa João Dias com a Joaquim Murtinho, demoliram a casa de Eurico Gaspar Dutra [ex-presidente] para dar lugar a um comércio. Logo mais abaixo havia uma casa com frontispício lindo que era do Renato Pimenta, um famoso advogado de Cuiabá. Vai lá para você ver. Está tudo caído. Na Barão de Melgaço, na esquina com a Secretaria de Cultura, a casa de Rubens de Mendonça, considerado um dos grandes escritores no Brasil, está no chão.

 

Aí eu pergunto: vão construir coisa parecida? A Casa de Bem-Bem mesmo nunca mais. Até porque os construtores têm outra visão, não têm a visão da cuiabanidade. Nosso Cine Tropical, que coisa linda que era! As cortinas eram todas de veludo. Demoliram e virou um banco. E tudo isso sem fazer um plebiscito, sem consultar ninguém. Vão derrubando e vão fazendo.

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Moisés Martins

"Fico emocionado e triste porque eu vejo que a minha cidade está sendo destruída"

Eu fico triste quando dou uma entrevista sobre isso. Fico emocionado e triste porque eu vejo que a minha cidade está sendo destruída (chora). Você imagina que estupidez: construíram um ponto de ônibus na Praça Bispo Dom José. Bispo Dom José foi o homem que saiu com uma bandeira para pedir aos cuiabanos que não matassem os portugueses. E ali colocaram um ponto de parada de ônibus.

 

Cuiabá, para mim, hoje é uma cidade completamente descaracterizada, mal administrada, não tem compromisso com a nossa cultura coisa nenhuma.

 

A cidade tem alma, a cidade fala, a cidade grita, a cidade reclama. Nós estamos vendo Cuiabá reclamando, mas lamentavelmente estamos convivendo com essa depredação que está acabando com nossa história. Cada casarão que cai é uma história que se vai.

 

MidiaNews - Então há um descaso completo com o patrimônio arquitetônico cuiabano?

 

Moisés Martins – Lamentavelmente não há um projeto de preservação desses bens culturais.  Uma construção como essa, da Casa de Bem-Bem, da professora Constança Palma, carrega uma história e tudo veio abaixo, não sei se de propósito.

 

Até sobre essas casas eu fiz um poema interessante na linguagem cuiabana: “Minha casa geminada qual a alma do meu  povo. Uma porta, uma janela de trancas e tramelas, testada azul, barrado vermeio amarela, feita de frente pro sol poente, calçada alta pra tchuva escorrê. Uma cancela que sempre geme quando tchega dgente. Tchão batido, no canto um pote com a beira quebrada, uma foinha na parede pendurada.Com a fortografia de São Jorge Guerreiro prá nos protegê. De quebrantu, arca caída e mau oiádo minha casa não é só casa. Minha casa é um lar de braços abertos pra quem passar, de braços abertos pra quem tchegar!".

 

Nesse poema eu já dou uma pincelada boa de como Cuiabá é na construção. E na urbanização, de modo geral, nós temos - nós e alguns gênios, né - a mania de querer copiar coisas de fora. Nós não podemos comparar Cuiabá - onde as ruas foram traçadas na base do moar e do facão e a foice - com Goiânia, Brasília, Curitiba, que foram feitas na prancheta.

 

Quando eu estava à frente da Secretaria Municipal de Cultura na gestão de Wilson Santos, nós chegamos a discutir - porque ele queria aproveitar que Cuiabá tinha 600 mil habitantes - para abrir ruas mais dilatadas. Fui contra. Eu disse que Cuiabá é eminentemente brasileira se tratando de urbanização, assim como Ouro Preto, São João Del Rey, Diamantina [todas em Minas Gerais]. Nessas cidades há um trato dessas casas, umas juntas das outras e também das ruas. Há ruas em que caminhão não pode passar. Há um cuidado muito grande. As casas são todas pintadinhas, parecem até de boneca.

 

Quando fui vereador, apresentei um projeto para que o quadrante do Centro Histórico fosse imexível. Mas lamentavelmente o fator econômico fala mais alto

Aqui não existe esse cuidado. Inclusive, quando eu fui vereador, apresentei um projeto para que o quadrante do Centro Histórico fosse imexível. Mas lamentavelmente o fator econômico fala mais alto. E hoje em dia nós vemos a depredação do bem cultural que são as nossas construções.

 

O Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional] está aí, mas parece que é um "mendigozinho" sem muitas condições de fazer alguma coisa. Ou quando faz, não faz bem feito.

 

MidiaNews - O senhor é um dos ícones da chamada cuiabania, que, entre outras coisas, se caracteriza pela defesa das tradições e do linguajar local.  Como o senhor vê a cuiabania neste momento?

 

Moisés Martins – A juventude e os colégios não estão sendo preparados para assimilar a cultura que já existe.

 

Há pouco tempo fui dar uma palestra na escola Gustavo Kullmann e perguntei para a diretora se ela o conhecia. Ela não sabia que Gustavo Kullmann, juntamente com Leovegildo de Mello, foram os homens que implantaram o ensino fundamental em Cuiabá a pedido do presidente - na época não havia o cargo de governador - Pedro Celestino.

 

Então Cuiabá é vítima até de muitos cuiabanos que não respeitam a nossa cultura, que não querem nada com nossa cultura.

 

MidiaNews - Há algo mais que aflige o senhor em relação à falta de preservação? 

 

Moisés Marins - Outro fator que tem que ser muito batido: as mudanças dos nomes dos bairros e ruas tradicionais de Cuiabá. Há pouco tempo um camarada de fora veio me gozar -  e eu até me indispus com ele - dizendo que Rua dos Porcos [atual Antonio João] não era nome para se dar a uma via. É nome sim! E na Rua dos Porcos nasceu um dos grandes craques de Mato Grosso, o Totó Traçaia, que jogou no Corinthians, Botafogo. E por que Rua dos Porcos? Porque naquela rua havia várias chácaras onde se criava porcos. E ela desaguava na Prainha.

 

MidiaNews - O senhor acha que deveria haver algum tipo de benefício para que proprietários sejam incentivados a preservar seus imóveis, seja através de isenção de impostos ou mesmo uma linha de crédito subsidiada?

 

Moisés Martins – Eu acho que é possível, mas não vai acontecer por conta do interesse mercantilista. O negócio é mercantilista. "Eu quero saber se está ganhando. Se não estiver, pode derrubar". Por exemplo: no calçadão da loja Riachuelo [Rua Ricardo Franco], qual é a casa que não foi mexida ali? Nada foi preservado. Eu fico triste com essas situações. Gostaria de dar uma entrevista totalmente diferente, mas não posso ser mentiroso.

 

MidiaNews – Cuiabá criou a Secretaria dos 300 anos. O senhor acredita na eficácia dessa secretaria no que diz respeito à preservação da história?

 

Alair Ribeiro/MidiaNews

Moisés Martins

"Você vai nas escolas e os alunos não sabem cantar o hino nacional, muito menos de Mato Grosso, e de Cuiabá nem se fala"

Moisés Martins – Eu não acredito porque é uma secretaria que não tem uma dotação orçamentária definida. Sem dinheiro, você não faz. Além disso, é uma secretaria que tem pouco comprometimento das pessoas que ali estão em relação a Cuiabá. Alguns até criticam a cidade.

 

Tudo que existe que poderia ser aproveitado em nível de turismo, cultura, para Cuiabá não está sendo aproveitado. Pelo contrário, estão depredando.

 

Analise bem: o que representou essa destruição do estádio José Fragelli, o nosso Verdão, que poderia ser aproveitado como uma escola, como Leonel Brizola fez no Rio de Janeiro? O antigo Verdão poderia ser aproveitado até para jogos de pequeno alcance. Mas um estádio [Arena Pantanal] para 43 mil pessoas - onde se chegou a 10 mil nos maiores jogos foi muito - é um elefante branco.

 

Essa questão dos 300 anos vai ser difícil, porque nada você faz nada na vida sem comprometimento. Se você não tem interesse, não tem como fazer. Botar um palco lá com cantores é evento, não é uma coisa consolidada que nós precisamos.

 

Para os 300 anos vai haver muitos panfletos. Disso não tenho dúvida até porque as gráficas precisam ganhar e quem está contratando as gráficas precisa tirar uma porcentagem da contratação do trabalho.

 

MidiaNews - A percepção que se tem é que os jovens cuiabanos não fazem questão de manter as tradições locais – muitos até debocham do linguajar. O linguajar cuiabano e as tradições da cuiabania correm o risco de serem extintos?

 

Moisés Martins – Você vai nas escolas e os alunos não sabem cantar o hino nacional, muito menos de Mato Grosso, e de Cuiabá nem se fala. Se nós não temos esse alicerce cultural, nós vamos construi-lo em cima do que?

 

A juventude nossa não está nem aí pra nada. Só quer saber de balada, de ficar.

 

Há pouco tempo, eu estava em um evento e ouvi duas pessoas de fora criticando que cuiabano fala "tcha", "tchu". Aí eu fui até eles e os agradeci por me darem um tema para eu fazer um rasqueado: "O tcha tcha tcha do tchu tchu tchu do meu falar provoca riso, cochicho e gozação que me dá vontade de te mandar tomar chá de picão, mas o lugar que eu queria que você tomasse é um tremendo palavrão".

 

Existe? Não existe. Não se ensina literatura nas escolas, principalmente a literatura de Mato Grosso

MidiaNews - Que avaliação o senhor faz do trabalho do Governo do Estado e da Prefeitura em relação à Cultura?

 

Moisés Martins – A cultura no Brasil é considerada rodapé, não é parede. Aqui, quando fui secretário de Cultura do Município, a dotação era 0,2% do Orçamento. Eu sei que a Secretaria de Cultura do Estado tem dificuldades, a Secretaria Municipal tem dificuldades. E por mais boa vontade do gestor público, ele não tem como fazer porque tudo demanda dinheiro.

 

Eu me lembro que no dia 8 de Abril, que é comemorado o aniversário da cidade, para fazer uma comemoração eu sofri demais. Só de instalação para microfone foi R$ 200 mil. Não tem condições para isso. E, mesmo se tivesse, seria desvio de função porque nós temos aí um Pronto-Socorro com problemas, a Educação com problemas.

 

MidiaNews - O senhor é autor de diveros livros. Não acha que a literatura mato-grossense tem pouco espaço nas escolas?

 

Moisés Martins – Existe [ensino de literatrua local nas escolas]? Não existe. Não se ensina literatura nas escolas, principalmente a literatura de Mato Grosso. Pode até existir os esforçados que estão trabalhando nas escolas, mas de modo geral a grade curricular não conta com essa matéria.

 

MidiaNews-  Como avalia o Prêmio de Literatura de Mato Grosso?  É uma boa iniciativa? Aliás, o senhor está acompanhando os novos escritores de Cuiabá. Há alguém que tenha potencial?

 

Moisés Martins – Olha, eu desconheço, por isso não posso fazer uma análise profunda. Mas qualquer coisa que acontece em Cuiabá é sempre com aquela visão de oba-oba. Não tem aquela perenidade que precisa ter, até porque os órgãos públicos não dão apoio. Para você publicar um livro, o mais simples custa mais de R$ 25 mil. Se você chegar para o gestor público com o projeto e com o orçamento de R$ 25 mil, ele pode até aceitar, como aceitaram o meu lá na Assembleia, mas até hoje nada.

 

Midia News - O senhor é compositor de um clássico cuiabano, a música "Pixé".  Entende que as músicas regionais têm espaço na programação local?

 

Moisés Martins – Veja só: uma vez eu fui numa rádio e levei alguns CDs meus. Aí o produtor disse que topava tocar se eu lhe desse R$ 1 mil. Eu disse que lhe dava R$ 2 mil para ele nunca mais fazer uma proposta dessa para ninguém. É difícil. Não tocam e não vão tocar, apesar de ter uma lei que determina que se toque 20% da música local.

 

 




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3 Comentário(s).

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Raquelle  18.12.17 22h15
Que triste notícia. Na minha época de faculdade de turismo, fiz um trabalho sobre a casa de Bem Bem. Fui muito bem recebida pelos familiares. Me deram várias informações e contaram histórias. Falta interesse de ambas as partes, governo e os donos dos imoveis tombados (minha opinião). Dá pena de ver aquelas casas aos arredores da igreja do Rosário.
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ELI ROCHA  18.12.17 15h59
Grande Moisés! Só discordo de uma pequena coisinha: não é Cuiabá a responsável pelo estado lastimável dos imóveis históricos tombados pelo poder público e sim a própria cuiabania. Sim, ela mesma. Peço mil desculpas se estiver errado, mas acho que praticamente a totalidade desses imóveis são de propriedade de integrantes da cuiabania, ou seja, de famílias antigas e daqui. Ela, a cuiabania, se realmente fosse forte deveria exigir do poder público uma melhor política para a preservação desses bens. Querem saber de uma coisa: os donos (na maioria integrantes da cuiabania) querem mais é que os seus imóveis tombados desapareçam para poderem construir algo em seus lugares.
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MARCOS ANTONIO PEREIRA  18.12.17 07h56
Não sou cuiabano de nascimento mas tenho muito orgulho dos meus filhos nascerem na capital! Tenho um livro que ganhei assim que cheguei aqui com título Do Falar Cuiabano e vou montar um blog só para divulgar página por página. Só preciso de ajuda para montar o blog pois não sei.
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