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Entrevista da Semana / SEM CASTA PRIVILEGIADA
15.04.2017 | 20h34
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“Servidor não é culpado pelas irresponsabilidades dos governos”

Professor da UFMT critica reformas de Temer e Taques e fala sobre crescimento do conservadorismo

Marcus Mesquita/MidiaNews

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O professor Thiago Cury Luiz, que criticou reformas de Temer e Pedro Taques

DOUGLAS TRIELLI
DA REDAÇÃO

Professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) desde 2014, e mais alinhado com o pensamento da esquerda, Thiago Cury Luiz diz que os governos Estadual e Federal dão “traços alarmantes” à crise econômica para aprovar medidas que atingirão somente a população mais humilde.

 

Para ele, o governador Pedro Taques deveria focar no combate à corrupção como modo de aumentar o caixa do Estado. O professor de Comunicação acredita que a atual gestão está mais alinhada aos interesses das classes econômicas mais privilegiadas.

 

Cury defendeu, também, as reinvindicações salariais dos servidores públicos do Estado. Ele acredita que não conceder revisão inflacionária seria um “tiro no pé”.

 

“Não generalizo o funcionalismo público como casta privilegiada, seja em salários ou nas reinvindicações. Os servidores que reivindicam salários maiores não se sentem culpados, e não são, pelas irresponsabilidades que os governos cometeram”, disse em entrevista ao MidiaNews.

 

Ainda na entrevista, o professor falou sobre o crescimento de um setor conservador na sociedade, que, para ele, teve início com as manifestações de junho de 2013. Entretanto, disse não acreditar que figuras como Jair Bolsonaro (PSC) e Victório Galli (PSC) possam ganhar disputas majoritárias na próxima eleição.

 

Confira os principais trechos da entrevista:

 

MidiaNews – O Governo Federal tenta implantar uma série de reformas, como da Previdência e do Teto de Gastos. Conseguiu, recentemente, aprovar medidas como a ampliação da terceirização nas relações de trabalho. Como o senhor enxerga o Governo Temer no que diz respeito aos direitos dos trabalhadores?

 

Marcus Mesquita Imagens

Thiago Curry

"A terceirização ajuda quem está desempregado, mas sucateia essa relação que ele tem com o empregador"

Thiago Cury – Se chegar para a população que está desempregada, que está acima de 13%, a terceirização pode representar um ganho. Como a economia brasileira está em recessão, é difícil haver contratação e concurso público. Nesse sentido, a terceirização entraria na ideia de que “melhor ela que nada”. Mas minha forma de ver, se precariza demais às relações de trabalho.

 

Claro que ter emprego, ainda que não estável, é importante para quem está desempregado, mas não pode, em nome disso, prejudicar os outros 86% da população que estão empregados. Sem contar que a gente vive um momento difícil, mas assim que a economia retomar seu crescimento, as recontratações vão acontecer. Então, sou contra a terceirização, porque é possível diminuir essa taxa de desemprego com empregos sólidos. A terceirização ajuda quem está desempregado, mas sucateia essa relação que ele tem com o empregador e ainda vai prejudicar uma relação que hoje é solida para boa parte da população economicamente ativa.

 

A PEC do Teto dos Gastos e da Previdência representam a agenda desse Governo, que se apropria de uma crise econômica, e em minha visão exagera essa crise, dá traços alarmantes para justificar a implementação dessa agenda, que pode ser considerada conservadora na sua concepção política, mas liberal do ponto de vista econômico. O pretexto é de que o País está em crise e é preciso fazer reformas. Eles criam até eufemismos, como “modernizar as leis trabalhistas”, para ludibriar a população. Mas eles vêm enfrentando muito resistência, principalmente em relação à Previdência.

 

MidiaNews – O Governo diz que a reforma da Previdência é necessária porque um rombo poderá inviabilizar o Brasil. O Governo mente a respeito deste dado?

 

Thiago Cury – A minha visão é que o déficit apresentado pelo Governo não é como é demonstrado. Na Previdência, 68% recebem até um salário mínimo. O que o Governo está dizendo é que se continuar dessa forma, vai quebrar. E usam o argumento de que se paga demais aposentadorias. Mas o déficit existe não por conta do pagamento puro e simples da aposentadoria. O que causa o rombo é que o Governo trabalha, e sempre trabalhou, com as Desvinculações de Receitas da União (DRU). Eles pegam uma porcentagem da seguridade social e leva para pagar os juros da dívida pública. E esse é um problema que ninguém toca. Não se discute. E quando se tira um valor considerável, vai aparecer um rombo que não é pequeno. O rombo não é mentiroso, o que é mentira é a causa, porque o simples pagamento não é o motivo. O que precisamos é rever essa política de desvincular receita, porque se criarmos outras maneiras de se pagar a dívida pública brasileira, vamos perceber que a Previdência não vai apresentar o déficit que o governo está mostrando.

 

Marcus Mesquita Imagens

Thiago Curry

"Governo se apropria de uma crise econômica dá traços alarmantes para justificar a implementação dessa agenda"

Mesmo não sendo esse número alarmante que o Governo apresenta, é preciso fazer uma reforma, porque a sociedade brasileira já apresenta uma mudança etária muito grande e vai continuar apresentando. E, por conta disso, é preciso mexer hoje para que lá na frente não se crie esse rombo que eles dizem já existir hoje. É preciso pensar em uma reforma, mas não em uma que estabeleça 65 anos de idade mínima em um País em que uma pessoa que vive em São Paulo vai viver muito mais que isso, mas o cidadão que vive no nordeste, no semiárido do Ceará, não vai chegar a 65 anos nunca e não poderá desfrutar de sua aposentadoria. Se pensarmos na idade mínima de 65 anos e no tempo de contribuição, essa reforma da Previdência é quase uma apologia ao trabalho infantil, porque você teria que começar a trabalhar aos 16 anos e, ininterruptamente, contribuir por 49 anos para poder se aposentar aos 65 anos. Isso pensando no teto do INSS. É necessário pensar em uma reforma, mas esta que está aí é completamente incompatível com o País que temos.

 

MidiaNews – É uma reforma que penaliza somente os mais pobres?

 

Thiago Cury – Só os mais pobres. A previdência social foi, na verdade, instituída justamente para atender os mais pobres. Não passa pela minha cabeça que figuras bem-sucedidas economicamente vão depender do INSS para viver. Mesmo porque, para essas pessoas, o teto de R$ 5 mil não significa nada. Então, está claro que a previdência é para os mais pobres e que querem punir as classes menos favorecidas.

 

MidiaNews – Aqui, o Governo Pedro Taques tem uma agenda muito parecida com Temer com relação a cortes de gastos. A gestão dele também é neoliberal?

 

A minha visão é que o déficit apresentado pelo Governo não é como é demonstrado. Na Previdência, 68% recebem até um salário mínimo

 

Thiago Cury – Também. Não à toa, ele se filiou ao PSDB. O Temer não é do partido, mas se identifica muito e fez sua coalisão com esse partido. O problema não é o governo ser neoliberal ou o oposto disso. O problema é não apresentar à população os reais motivos pelos quais as medidas estão sendo tomadas. Embora eu discorde, não tenho problema em encarar um governo neoliberal, mas que seja de maneira honesta. Ou seja, apresente o motivo pelo qual está implantando essas medidas, que é o que não vem acontecendo, tanto no âmbito estadual, quanto federal.

 

MidiaNews – O Governo Pedro Taques também dá “traços alarmantes” à crise para implementar essas medidas?

 

Thiago Cury – Exatamente. Radicaliza o discurso da crise, no sentido de manipular a opinião pública, para legitimar as medidas que tenta implementar. A situação econômica de Mato Grosso é melhor que o cenário nacional. Nós estamos muito distantes de cenários de estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Não apresentamos traços que esses Estados apresentaram e que estão tomando medidas que são prejudiciais à população mais pobre, sendo que o problema da crise, e de fato ela existe, é outro. O problema são esses acordos com empresas para pagamento de propina, de desvio de verba, de superfaturamento de obras. Essas são as reais causas da crise, não os R$ 880 que o INSS paga para quase 80% dos inativos, os programas sociais que o governo anterior fez por 13 anos. Tudo isso representa uma parte muito pequena de toda a riqueza gerada pelo país.

 

MidiaNews – Então, diria que o Governo Pedro Taques é um governo voltado para as elites?

 

Thiago Cury – Eu diria que no atual momento está mais antenado aos interesses desses grupos privilegiados economicamente, do que atento as reais necessidades da população, daqueles que mais precisam.

 

MidiaNews – O Governo também deve enviar um projeto para Assembleia congelando o salário dos servidores por até dois anos por problemas de caixa, que os gastos são maiores que a receita. Acredita, então, que este é um discurso fabricado?

 

Está claro que a previdência é para os mais pobres e que querem punir as classes menos favorecidas

Thiago Cury – A crise existe e é preciso criar dispositivos para superá-la. O que não pode é se apropriar de argumentações falsas para sustentar medidas que não precisam ser tomadas. Se o diagnóstico é que a folha de pagamento é muito alta, o trabalhador não pode ser lesado agora porque outros governos foram irresponsáveis ao inchar essa folha. Agora, à medida que inchou, acredito que foi porque os governos acreditaram que era possível pagar. O que é complicado é recuar a partir do momento que se tem um direito estabelecido. Nas frentes em que o Governo precisa realmente recuar, e fariam diferença, no sentido de criar um orçamento mais saudável, não está fazendo. E aí, vai buscar mexer no setor que não vai trazer modificações significativas.

 

MidiaNews – Qual medida, então, surtiria mais efeito?

 

Thiago Cury – Todas essas movimentações que aconteceram no âmbito nacional de má locação do dinheiro público, superfaturamento de obras, dessa relação estreita que existe entre Estado e iniciativa privada, é esse tipo de modus operandi que precisamos buscar modificar, e não preciso citar que as principais lideranças políticas do passado estão presas justamente por conta disso. Acredito que se o Governo Taques mexer nessa cultura de corrupção, que não é só de Mato Grosso, e na relação com a iniciativa privada, e isso acontecer também no âmbito nacional, os orçamentos dos estados vão se tornar mais saudáveis sem precisar afetar direitos fundamentais que foram duramente conquistados pela classe trabalhadora.

 

MidiaNews – No atual Governo ocorreu somente um caso de corrupção, que foi na Secretaria de Educação...

 

Marcus Mesquita Imagens

Thiago Curry

"No atual momento Governo Taques está mais antenado aos interesses desses grupos privilegiados economicamente, do que atento as reais necessidades da população"

Thiago Cury – Não estou afirmando que o atual governo tem as mesmas práticas do anterior. O que quero dizer é que se o atual Governo evitar o que o anterior fez muito, a saúde financeira do Estado vai melhorar consideravelmente. É aí que está a diferença do orçamento público. Equacionar, entender que determinada obra vale X, não 10 X. Porque o déficit mora justamente aí, não no mero pagamento de salário para servidor, professor, técnico administrativo.

 

MidiaNews – O combate à corrupção é um dos discursos do governador. Acredita que ele não tem feito o suficiente?

 

Thiago Cury – Acredito que a crise que está instalada no Governo agora vem a reboque dessa crise que está instalada na Federação. Não consigo afirmar se o déficit é por conta das mesmas práticas do Governo anterior. Não tenho embasamento para falar isso. Se o discurso dele é esse, vamos conseguir ter uma noção se o orçamento está mais equacionado, mais saudável, no final da sua gestão.

 

MidiaNews – Há algumas semanas, um representante do Instituto Caminho da Liberdade, que defende ideias conservadoras, deu uma entrevista ao MidiaNews classificando o funcionalismo público de casta privilegiada, que tem garantia de emprego e pede aumento salarial, em um momento de crise no País. O que o senhor acha desta visão?

 

Thiago Cury – Dizer que o funcionário público é uma casta privilegiada é uma generalização, e toda generalização é perigosa, porque vai cair em algo que não confere com a verdade. Boa parte dos servidores públicos, sejam municipais, estaduais ou federais, ganham salários mínimos. Não podemos confundir alguns ocupantes de cargos públicos, que são a minoria, principalmente no âmbito do Judiciário. Pensando de um modo geral, não vejo os servidores públicos como uma casta privilegiada. Acho que o funcionalismo público consegue remunerar melhor que a iniciativa privada em vários âmbitos, mas isso não significa que o Estado pague muito, e, sim, que a iniciativa privada paga pouco em alguns casos. Agora, se me perguntarem se sou a favor dos supersalários do judiciário e, consequentemente, da aposentadoria, e dos supersalários dos representantes políticos, digo que sou contra. Mas não generalizo o funcionalismo público como casta privilegiada, seja em salários ou nas reinvindicações. Os servidores que reivindicam salários maiores não se sentem culpados, e não são, pelas irresponsabilidades que os governos cometeram.

 

Marcus Mesquita Imagens

Thiago Curry

"Se o Governo Taques mexer nessa cultura de corrupção, e isso acontecer também no âmbito nacional, os orçamentos dos estados vão se tornar mais saudáveis"

MidiaNews – Então, a Revisão Geral Anual (RGA) é um direito adquirido e o servidor tem que receber ou eles precisam ter a sensibilidade de que o momento é de crise e o Governo não pode pagar?

 

Thiago Cury – A questão do direito adquirido é bastante controversa. Tem gente que defende que não podemos retrair, só caminhar para frente. Mas tem quem defenda que em momentos de crise tem que cortar em alguns pontos. Eu defendo a RGA e acho que se não fosse normatizado, o bom senso diria que ela deveria existir, porque o trabalhador precisa ter, pelo menos, seu salário equiparado à variação da inflação. Senão, terá perda de poder aquisitivo, que vai gerar uma economia desaquecida. O ideal é que o ganho de salário seja acima da inflação. Então, acho que revogar a RGA é dar um tiro no pé. Sem perceber, cria um cenário melhor no orçamento, mas na frente, esse dinheiro a mais não vai ser jogado na economia para fazê-la funcionar.

 

MidiaNews – Mesmo diante da crise, o Governo deveria dar um jeito de pagar a RGA?

 

Thiago Cury – Exatamente.

 

MidiaNews – O senhor está entre aqueles que enxergam uma guinada conservadora no Brasil?

 

Thiago Cury – Sim. A gente consegue observar alguns sinais que estão mais evidentes e outros que estão mais ocultos, mas possíveis de perceber também. O Brasil viveu, por um tempo, um governo que tendia a realizar algumas medidas que afloraram esse grupo mais conservador, que estava adormecido desde a ditadura militar. E a partir do momento que este governo entrou em desgaste, gerou uma reação. E pudermos perceber alguns movimentos nesse sentido, primeiro em 2013, momento em que ainda não percebíamos bem qual era o teor daqueles movimentos de junho e julho.

 

Dizer que o funcionário público é uma casta privilegiada é uma generalização, e toda generalização é perigosa

MidiaNews – Aqueles eram movimentos conservadores?

 

Thiago Cury – Ainda não tínhamos entendido bem qual era a proposta daquelas manifestações. E, a meu ver agora, com o que aconteceu em 2015 e 2016, entendo que 2013 foi o germe desses movimentos que afloraram há dois anos.

 

MidiaNews – A que se deve o surgimento de nomes como Jair Bolsonaro como candidato forte para a eleição presidencial?

 

Thiago Cury – O Brasil, tradicionalmente, tem uma tendência ao autoritarismo e sempre se sentiu atraído por um discurso moralista, que chame para si algumas responsabilidades. Já tivemos alguns políticos, não da mesma natureza que o Bolsonaro, mas que tentaram atrair para si essa imagem mais paternalista, como Getúlio Vargas. Essa tendência autoritária é um fato. A nossa tradição católica/cristã também é outro. Entendo que o Bolsonaro e outras figuras mais conservadoras representem isso, o que na minha visão é um atraso se for pensar no estado democrático, que é isento de religião e sem a necessidade de se ter essa figura paternalista, uma vertente militar. E essa vertente militar preocupa bastante, porque tivemos um passado que é recente, uma política malsucedida e que, mesmo assim, vai gerando alguns ecos na sociedade atual, e, o mais preocupante, principalmente entre os jovens.

 

MidiaNews – O fato de um governo dito popular ter se envolvido em tantos casos de corrupção contribuiu para o fortalecimento da direita no Brasil?

 

Revogar a RGA é dar um tiro no pé. Sem perceber, cria um cenário melhor no orçamento, mas na frente, esse dinheiro a mais não vai ser jogado na economia para fazê-la funcionar

Thiago Cury – Contribuiu. Não vou atrelar o PT à corrupção como elemento exclusivo dele. A corrupção não é algo que diferencia o PT de outros partidos, mas é a vala comum de todos eles. Mas, por vivermos um momento em que isso salta mais aos olhos, porque a imprensa aprendeu, não sei se por conveniência ou espírito democrático, a fiscalizar mais. E isso acabou gerando um descontentamento geral. Agora, não basta atribuir o que aconteceu em 2016 [impeachment da presidente Dilma Rousseff] a um movimento conservador, porque mesmo as figuras mais alinhadas ao PT reconhecem que o partido acabou indo por um caminho. E se essas pessoas não foram defender o partido, muito se deve a esse caminho escolhido.

 

MidiaNews – A que atribui esse crescimento do conservadorismo entre os mais jovens?

 

Thiago Cury – Isso é mais difícil de tentar entender. Acredito que possa ter um componente familiar. Os pais estão tendo, cada vez mais, a preocupação de incutir nos filhos uma “consciência política”. E isso entre aspas. Vi crianças de cinco ou seis anos reproduzir falas que os pais incutiram nelas, por exemplo, de aversão a Dilma. E a outra instância responsável pela educação, que é a escola, talvez não tenha apresentado tanta eficiência, mas não no sentido de doutrinar, criar uma ideologia, e, sim, de apresentar todas as possibilidades que estão em jogo.

 

MidiaNews – Diante dessa guinada do conservadorismo, como enxerga as eleições de 2018? Personagens como Bolsonaro, no cenário nacional, e Victório Galli, em Mato Grosso, tendem a ter votações expressivas?

 

Thiago Cury – No caso de candidaturas mais à direita, no pleito majoritário, como governo do Estado ou presidência da República, ainda não acredito que vá acontecer. Acho que dificilmente o Bolsonaro vá angariar 10% dos votos, vai ficar bem abaixo disso. Agora, depende do que entendemos por expressivo. Para mim, se Bolsonaro tiver 5% dos votos da eleição para presidente, é muito.  Aquilo que espero de um político, e não estou falando de esquerda ou direita, mas no sentido do caráter democrático, o Bolsonaro é alguém que não tem nada a acrescentar e pensar em 5% já seria expressivo. Mas para 2018, se pensarmos na direita mais extrema, por enquanto, isso não vai se concretizar.

 

Marcus Mesquita Imagens

Thiago Curry

"O Brasil, tradicionalmente, tem uma tendência ao autoritarismo e sempre se sentiu atraído por um discurso moralista"

MidiaNews – Não teremos, então, o efeito Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, aqui?

 

Thiago Cury – Não vai ocorrer. Nesse nível de radicalismo, entendo que não.

 

MidiaNews – Vários regimes totalitários, a exemplo do Nazismo, surgiram após períodos de crise econômica, política e social, em que a população estava desacreditada. O Brasil hoje passa por situação parecida. Então, o senhor não enxerga esse risco no horizonte?

 

Thiago Cury – Não vou descartar, mas acho muito improvável de se acontecer. Mesmo porque pelas pesquisas de opiniões que se começam a fazer, dá para se observar que as figuras mais tradicionais da política têm ainda certo fôlego, como o presidente Lula, que aparece em primeiro em todas as intenções de voto, mesmo eu acreditando que esse cenário ainda vai mudar muito, porque a rejeição é grande. De qualquer maneira, quando a propaganda gratuita começar, outras figuras vão aparecer. E considerando que PT e PSDB ainda vão polarizar a política brasileira, essa figura totalitária ainda vai estar afastada do nosso cenário. Agora, se essa polarização de PT e PSDB, que tem menos a acrescentar do que já teve, for implodida hoje, aí, sim, acredito que abre a possibilidade de emergir essa figura, que seria muito mais preocupante do que qualquer nome desses dois partidos.

 

MidiaNews – Há um elemento que pode implodir essa polarização, que é a Lava Jato.

 

Thiago Cury – Sim, mas acredito que o desfecho não vai ser esse. Acho que a Lava Jato vai chegar até certo ponto e não vai conseguir, ou não vai querer, ir além. O fato dessas figuras tradicionais ainda dominarem o certame político brasileiro mostra isso, porque já foram muitos desgastados e mesmo assim conseguem encontrar um lugar privilegiado na opinião das pessoas.

 

MidiaNews – Aqui em Mato Grosso especificamente, existe uma rejeição grande em relação à esquerda, que dificilmente consegue eleger governadores, prefeitos e até mesmo vereadores nas cidades maiores. Qual a razão disso?

 

Acho que dificilmente o Bolsonaro vá angariar 10% dos votos, vai ficar bem abaixo disso

Thiago Cury – É difícil de entender esse processo. Estou aqui há pouco tempo, mas entendo que a vinculação da política mais conservadora pode ser explicada por um tradicionalismo religioso, que é muito presente na cidade e no Estado de um modo geral. Isso acontece no Brasil, mas aqui vemos isso bastante enraizado.

 

MidiaNews – Um dos fatores pode ser a falta de lideranças expressivas na esquerda do Estado?

 

Thiago Cury – É possível. Pode ser que não tenha aparecido aqui um político alinhado mais a esquerda que tenha despertado os anseios da população como em outros lugares. Nas últimas eleições, mesmo o PT envolvido em muita corrupção, conseguiu eleger o prefeito de Belo Horizonte, mas é evidente que em outros centros isso diminuiu muito em função do âmbito federal. Da mesma forma que no início dos anos 2000, com o Lula, esse anseio se disseminou pelo País, e a figura positiva dele gerou outras vitórias eleitorais, agora que o partido está em decadência, tem gerado efeitos negativos. Em São Paulo e em Mato Grosso, nem quando o partido estava muito bem conseguiram eleger representantes. Lá em São Paulo, desde 1995 os governadores são do PSDB. De fato, em alguns lugares existe um enraizamento de alguns partidos. Se formos ao nordeste, esse enraizamento muda de lugar.




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26 Comentário(s).

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LUIZ  21.04.17 08h59
Pros comentários apoiando o governo: EM QUE BRASIL VOCÊS VIVEM? Este governo está trabalhando em prol do povo??? Brasileiro é muito tapado mesmo...o governo federal aprontando prá cima de nós, e tem gente que ainda pede mais...
2
0
Fabricio dos Santos  18.04.17 17h21
O governo trabalha em prol do povo e não pra beneficiar só alguns poucos. Precisamos nos atentar mais a questões básicas importantes como saúde e educação e parar um pouco de mimimi olhando pro próprio umbigo e esquecendo do próximo.
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4
Eduardo  18.04.17 16h47
O dinheiro público não pode ser voltado apenas para o pagamento das regalias dos servidores.
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7
Manoel silva  18.04.17 16h19
Essa gestão ninguém tem privilégios,o governo trabalha em discute em prol de todos.
6
8
Solange Nunes  18.04.17 16h17
É tanta classe pra atender que o governo não pode dar privilégio só pra uma.
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