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Opinião / VILSON NERY
12.03.2018 | 23h00
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O suicídio

Durkheim apresenta um estudo sociológico sobre este drama que atinge a alma e destrói famílias

Por ocasião da graduação tive os meus primeiros contatos com as ideias e as obras do cientista David Émile Durkheim, autor de diversos clássicos do pensamento humano.

 

Nascido em 15/04/1858, Durkheim foi um sociólogo, antropólogo, cientista político, psicólogo social e filósofo francês. A ele é creditada a criação formal da disciplina acadêmica da Sociologia. Posteriormente, já no desenvolvimento do curso de mestrado fui instigado a compreender com maior profundidade as proposições deste autor.

 

Em uma de suas obras mais desafiadoras, “O Suicídio” (Editora Martins Fontes, 2000; tradução de Monica Stahel), Durkheim apresenta um estudo sociológico sobre este drama que atinge a alma humana.

 

O livro é dividido em três tópicos, nos quais são selecionadas e agrupadas as prováveis causas do suicídio: I – Os fatores extra sociais; II – Causas sociais e Tipos sociais; e III – Do suicídio como fenômeno social em geral.

Ao discorrer sobre as causas sociais do fenômeno, Durkheim retrata o suicídio por egoísmo, que seria incentivado por razões de ordem religiosa

Tratando dos fatores extra sociais, fazendo uma ligação entre o suicídio e os estados psicopáticos, o autor explica a teoria segundo a qual ação da pessoa que recorre ao ato suicida se relacionaria a uma enfermidade da mente. Apresenta estudos da época que rechaçam essa proposição, afastando a psicopatia como a principal causa do suicídio.

 

Ao discorrer sobre as causas sociais do fenômeno, Durkheim retrata o suicídio por egoísmo, que seria incentivado por razões de ordem religiosa, quando o ego individual se afirma demasiadamente face ao ego social. Há uma individualização desmesurada, as relações entre os indivíduos e a sociedade se afrouxam fazendo com que o agente não veja mais sentido na vida, não tenha mais razão para viver.

 

O suicídio por altruísmo seria aquele no qual o indivíduo sente-se no dever de fazê-lo para se desembaraçar de uma vida insuportável.

 

O ego não o pertence, confunde-se com outra coisa que se situa fora de si mesmo, isto é, em um dos grupos a que o indivíduo se veja incluído. Sob essa ótica, suicidas altruístas seriam os kamikazes japoneses, os homens-bomba que conduziram alguns aviões a se chocar contra o World Trade Center em Nova Iorque, em 2001, trazendo eu alguns exemplos que entendo pertinentes.

 

E ao tratar o suicídio como fenômeno social geral, Durkheim elenca as formas individuais dos diferentes tipos, o elemento social do suicídio, e a relação deste com os demais fenômenos sociais.

 

Me chamou a atenção um dos tópicos, em que há uma relação de proximidade entre este fenômeno e as crises políticas, que dariam causa ao aumento exponencial dos casos de suicídio.

 

Segundo o autor, a história mostra que o suicídio se multiplica quando as sociedades se desintegram:

 

“Na Grécia, em Roma, ele surge quando a antiga organização se abala e seus avanços marcam as etapas sucessivas da decadência. Observa-se o mesmo fato no Império Otomano. Na França, às vésperas da revolução, o transtorno que afetou a sociedade em consequência da decomposição do antigo sistema social traduziu-se por uma brusca evolução dos suicídios, da qual nos falam os autores da época.” (DURKHEIM, 2000, p. 249).

 

Ele cita Helvetius, que escrevera em 1781: “A desordem das finanças e a mudança na constituição do Estado espalharam uma consternação geral. Numerosos suicídios na capital são a prova disso.”.

 

E fecho esse raciocínio mostrando mais uma evidência de que as crises institucionais guardam estreita relação com o aumento do número de suicídios, segundo o autor: “Simples crises eleitorais, por menos intensas que sejam, às vezes têm o mesmo resultado. Assim, na França, o calendário de suicídios traz a marca visível do Golpe de estado parlamentar de 16 de maio de 1877 e da efervescência que resultou dele, assim como das eleições que, em 1889, deram fim à agitação boulangista.” (página 252).

 

Assunto tenso, realidade que machuca as pessoas próximas a essas tragédias, fenômeno sociológico, o suicídio merece uma reflexão com a isenção científica que a situação reclama.

 

VILSON NERY é advogado em Cuiabá




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1 Comentário(s).

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Fernando Dias  12.03.18 20h27
Excelente texto. Por ironia do destino minha monografia é sobre a "Anomia social" e seus perigos para democracia e a economia. Cito Durkheim, além das dificuldades na economia podem levar a anomia antipolitica que é um neologismo que uso em minha tese. Isso acontece pela questão de falta de "civilidade" e pertencimento da sociedade por meio do ato de participar da democracia representativa, que no noss caso esta falida.
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